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sábado, 19 de março de 2016

Muito Além... das Músicas de Protesto: A Visão da Música nos Momentos Históricos do Brasil

Quando Nicolau Maquiavel escreveu O Príncipe, ele nem imaginava que, no que ficou conhecido como Novo Mundo, surgiria um país mais intricado politicamente do que qualquer das versões do seriado House Of Cards - sim, o BRASIL.

Muito antes das manifestações populares ante-tudo-isso-que-está-aí-mas-principalmente-o-PT-corrupto, muito antes das cueca-cofre... Ou seja: desde sempre essas investidas contra as liberdades individuais não foram capazes de frear a produção cultural do protesto. E, como o nosso assunto aqui é música, e o suprassumo das democracias é xingar o presidente abertamente, reunimos aqui uma listinha marota (enquanto o 1984 de George Orwell não vem) de musiquinhas meio tanga-frouxa nesse nosso Muito Além... Das Músicas de Protesto.



DILMA ROUSSEFF (2011 - 2018[?])

Bem que tentaram readaptar o clássico Vou Festejar, samba de Jorge Aragão imortalizado na voz de Beth Carvalho, ao status de hino anti-Dilma, mas a verdade é que a Dilmãe anda tão impopular que nem música própria tem, só um versinho adaptado da Vida Bandida do roqueiro Lobão (Dilmaaa/ Dilma-Dilma-Dilma/ Dilma bandida). Porém, é praticamente impossível ouvir os primeiros versos de A Garota Super Brasil, sobre a menina que "já foi ativista", "já foi militante", e "não é mais grevista", sem se associar a figura da presidente(a). Júpiter Maçã, quando em vida, atribuiu o papel de musa inspiradora dessa canção à Laetitia Sadier, do Steriolab, quando a conheceu pessoalmente em 2000, no Rio de Janeiro. Pudera, fica realmente difícil compor algo que una "mandioca", "estoque de vento" e "pedaladas" numa figura pública só. Jilma é realmente uma obra em constante produção.


LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA (2003 - 2011)


Do mítico herói sindical de nove dedos criado pelos professores universitários ao salvador da pátria retratado na Luiz Inácio e Os 300 Picaretas, d'Os Paralamas do Sucesso, Lula, a jararaca indestrutível e cosplayer de Carmen Sandiego, virou o engravatado posto contra a parede na Quem Te Viu, dos Ratos de Porão, após o primeiro dos muitos escândalos de corrupção que estavam por vir em sua administração. 


 Lula falou, em 1993, que o Congresso só tinha picaretas, aguçando assim a criatividade de Herbert Viana, de seus 'companheiros' de partido, anos depois, e do rapper Marcelo D2, que resumiu o crescente desencanto do cidadão comum com a classe política brasileira.

  

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO (1995 - 2003)


Fora a ironia de ter uma banda, cuja tradução do nome significa "Planeta Maconha", criticando-o abertamente anos antes de assumir que o THC "não pode te prejudicar" e que o narcotráfico só contribuiu com os aumentos nos número de mortes ao redor do mundo e com a audiência de séries do Netflix, FHC ainda é um para-raios de críticas políticas talvez só menor do que seu sucessor petista. Seja excursionando mundo afora para emplacar uma pauta moderninha e liberal, ou bancando amantes com dinheiro de empreiteiras, Fernandinho definitivamente está para os sociólogos da mesma forma que Paulo Coelho está para os intelectuais literários.

ITAMAR FRANCO (1992 - 1995)


A música do presidente topetudo que segurou a bancarrota do país deixado por Collor poderia ter sido a saudosa Oh Minas Gerais, de Tonico & Tinoco. Poderia, mas, como bom tiozão serelepe embriagado num carnaval, Itamar entrou pra história ao ser flagrado ao lado de uma modelo sem calcinha. Lilian Ramos, a musa da calcinha/marchinha, demonstrava assim que, não só a economia, mas os escândalos sexuais também são importantes instrumentos na queda ou ascensão de governos. 

FERNANDO COLLOR DE MELLO (1990 - 1992)


Collor até hoje é um provável argumento histórico do porquê a Grécia Antiga declinou mesmo sendo a primeira democracia. O cara conseguiu ser o primeiro presidente eleito pós-redemocratização e o que fez com isso? Tratou a política e a economia igual criança mimada quando leva a bola de leite pro futebol com os amigos mais pobres: faz birra e se retira da brincadeira ao primeiro sinal de motim. O caçador de marajás foi homenageado por Mao, ex-vocalista dos Garotos Podres. Os punks o retrataram como um rapazote que "agora só passa a mão nas poupanças das velhinhas", provando que política e trocadilhos infames sempre andaram de mãos dadas por aqui.

JOSÉ SARNEY (1985 - 1990)


O hit Vossa Excelência, dos Titãs, com os versos "filho da puta, bandido, corrupto, ladrão" poderia ser uma música adequada para o ex-presidente, ex-deputado, ex-senador, ex-governador e 'dono' do Maranhão, José Sarney. Sorte dele que Amado Edilson o enalteceu com um fabuloso forró: "vou falar de um homem importante, muito rico e popular". Oremos!

TANCREDO NEVES (ELEITO, MAS MORREU)


E seguindo o desagradável provérbio informal de que "político bom é político morto", coube a Tancredo Neves a mais bela das homenagens, por assim dizer, das aqui citadas. Primeiro presidente civil após 21 anos de ditadura militar, Tancredo não tomou posse porque morreu após uma crise de diverticulite. Os versos de Coração de Estudante, de Milton Nascimento, foram tocados à exaustão enquanto o país o velava. "Já podaram seus momentos", "desviaram seu destino", e "há de se cuidar do broto para que a vida nos dê flores" fizeram milhões de lágrimas rolarem em todo o país. 

Sendo assim, da próxima vez em que vocês se surpreenderem com a relação de amor e ódio de um artista com um político, lembrem-se que essa é só a ponta de uma relação tão antiga quanto cercada de interesses nem sempre nobres. O uso de canções populares com a intenção de angariar votos para esse ou aquele candidato, ou para fazer juízo de valor sobre o governante em geral, é uma prática que, desde os tempos de Antonio Gramsci determinam quem governa e quem é subjugado. Mas, isso é assunto que extrapola a música. E só ela tem o direito de imperar indefinidamente (em nossos corações):

"Eu vejo a vida melhor no futuro
Eu vejo isso por cima de um muro
De hipocrisia que insiste em nos rodear"
(Tempos Modernos, Lulu Santos)

Fonte:
Texto e ideia quase que completamente chupados do site da Noisey <http://noisey.vice.com/pt_br/blog/musicas-presidente-rock>


2 comentários:

  1. Post muito legal, uma música que eu acho que tem tudo a ver com o momento histórico que estamos passando é "Não Acredito" d'Os Seminovos, você conhece? Até escrevi sobre ela em meu blog:

    http://www.rascunhocomcafe.com/2016/03/analise-da-musica-nao-acredito.html

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    1. Poxa, Alessandro Bruno, muito me honra o seu comentário! De um entusiasta da boa música pra outro, admito que muitos foram os artistas que ficaram de fora, dos quais cheguei a pensar seriamente em mencionar no fim do texto, mas nós dois sabemos que essa seria uma espiral tendendo ao infinito, não! Rsrs Ah, interessantíssima a sua recomendação! Confesso que não conhecia, mas já estou de olho no trabalho d'Os Seminovos, tanto que pretendo sita-los no próximo post. "Só a Boa Música salva"!

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