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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Muito Além... Do Dito Sexo Frágil

Sou um machista inconsciente. Digo isso porque, muito embora vivamos tempos em que muitas mulheres despontem no topo das paradas de sucesso, eu continuo preso em meu mundinho particular habitado por meus ídolos musicais - quase todos homens.





Talvez eu seja o último dos moicanos que possa dizer que nunca ouviu nenhum disco do fenômeno Adele; que jogue no Google pra se lembrar quem afinal é Marisa Monte - ocorrido há poucos minutos atrás, enquanto digitava este texto -; que, até hoje, desconhece grande parte da produção musical de Elis Regina; que considere Pitty a última roqueira da safra atual que realmente valha a pena se ouvir, embora só conheça mais profundamente a discografia de Rita Lee; que, em geral, ache a contribuição feminina muito a quem da masculina em todos os gêneros musicais, etc. E essa autoavaliação só nasceu recentemente, graças a um evento ocorrido no mundo da música, mas que ainda repercute na mídia especializada: a saudação nazista executada pelo ex-Pantera (e agora ex-Down) Phil Anselmo.

Sim, reconheço, seria mais natural falar neste texto sobre o quão sem noção é a ideia de preconceito na música, como em qualquer outro campo da vida em sociedade. Mas talvez esse caso tenha me feito parar de encarar o problema como algo externo e olhar pra dentro de mim mesmo em busca dos meus preconceitos, despertados anteriormente pela polêmica declaração do ator e músico Seu Jorge sobre a cena rock - do qual deixo aqui um texto para quem queira me ajudar a chegar a uma opinião mais racional. Ou simplesmente, porque seria linear e superficial demais desperdiçar esse espaço que tenho com vocês que nos leem com com um tema tão complexo assim.

Objeções ao politicamente correto à parte, assumo a responsa que me foi concedida pelos loucos do Muito Além das Aspas pra, corrigindo essa desfeita, desbravar com vocês mais a fundo nesse: Muito Além... Do Dito Sexo Frágil!





Muitas vezes renegadas ao papel de meras coadjuvantes de seus pares da área masculina, ao longo das épocas as mulheres vêm contribuindo na evolução da música. Figuras como a monja alemã Hildegard von Bingen no período medieval, a compositora italiana Francesca Caccini no período barroco, a também compositora inglesa da era clássica Harriett Abrams, dentre tantas outras de diferentes anos e de diferentes aptidões musicais - uma lista ampla e completa, para os interessados, é encontrada na Wikipedia -, só agora, com a popularização do conhecimento que a internet propicia, têm recebido os devidos créditos pela importância de suas obras para o mundo atual. E, para a nossa sorte, nosso país também teve suas pioneiras nas figuras de Chiquinha Gonzaga, com a sua 'proto-MPB', Dolores Duram, na nascente bossa nova, e Nora Ney, hoje reconhecida como a primeira interprete de um rock em terras brasileiras ao lado de nomes como Caubi Peixoto e Celly Campelo.


Como que personificando o provérbio que diz que "o pior cego é aquele que não quer ver", muitas vezes fui vendado pela própria indústria da música, por inexperiência. Quantos não são os casos em que compositoras, instrumentistas ou interpretes femininas foram eclipsadas pelo talento de seus parceiros: Almira e Jackson do Pandeiro, Anastácia e Dominguinhos, June Carter e Johnny Cash, Justine Frischmann e Damon Albarn, e, talvez o caso mais emblemático, Courtney Love e Kurt Cobain. Ao enxergarmos o conjunto musical como um Clube do Bolinha, atribuímos à intervenção feminina a culpa pelos percalços que possam vir, papel esse que Yoko Ono vem desempenhando desde 1970 no imaginário dos fãs dos Fab Fours.



Nesse fervilhar informações tendenciosas, poucas foram as musicistas que passaram incólumes sob meu julgamento. A mais ilustre dessas talvez tenha sido a roqueira Rita Lee Jones. Não somete por sua carreira a frente d'Os Mutantes, banda brasileira de maior reconhecimento no exterior ao lado de nomes como Sepultura e Tom Jobim, mas principalmente em sua carreira solo, onde, sem nenhum pudor, a temática feminista era abordada de forma leve e irreverente ao falar de assuntos comuns a todas as mulheres, como a menstruação ou a menopausa. Muito talvez por isso eu seja um dos poucos caras do meu círculo de amizades realmente interessado em conhecer mais a fundo a doutrina - assunto esse que podemos deixar pra uma ocasião próxima.



Tal qual Paulo Coelho que, ao ser perguntado sobre a rapidez com que escreve suas obras, disse que na verdade resumia seus tantos anos de vida nas poucas horas que levava escrevendo, posso dizer que este post nasceu da conversa então descompromissada que tive com Luis, o gênio louco por trás deste blog. Na ocasião, descobri que o pouco conhecimento musical que tinha esteve esse tempo todo pela metade ao não dar espaço às garotas, e que música, além de não ter cor, não tem sexo.

P.S.: pra não perder a toada da temática do preconceito que levantei inicialmente, e não encerrar esse texto com mal humor, deixo, acima, o clássico da Patti Smith, rock'n Roll Nigger. Viva a boa música!

Imagens: Obtidas através de pesquisa na internet. Todos seus direitos reservados aos seus respectivos autores.

2 comentários:

  1. Realmente estou sem palavras, apenas amei o texto. <3

    umagarotasemestilo.blogspot.com

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